terça-feira, 11 de março de 2014

"Nova" iniciativa


Desde 11 de janeiro deste ano dei início a um projeto assaz ousado, e o qual estou certo de que várias pessoas já tentaram, talvez até conseguiram vencer. Nomeei-o Filmic Jēran - a última palavra vinda do rúnico -, e estabeleci um mindset a ser seguido. Espero que minha sede por um repertório fílmico mais rico se desperte e vença minha já comum indisposição geral. 

Para aqueles que se interessarem, este é o link para o blog.


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Inspiração e o lápis.

É impossível ler “A Elegia de Marienbad” e não querer versar em sibilos melancólicos sobre as dores da alma e a beleza da aceitação artística dessa dor, bem como é impossível ler Cioran e não querer fazer o mesmo acerca da dor do viver, da impaciência com o mundo, da desesperança que, embora feia, é por vezes o único consolo à imaginação ávida por sentidos imediatos. Impossível ler O Lobo da Estepe e não desejar a criação de um mundo subjetivamente mágico, onde as nuances do meio coletivo são comprimidas a um impulso transcendente de mentes imaginativas. Impossível ler Alan Moore e não querer apanhar a tinta e criar quadros gráfico-textuais sobre a fragmentação da civilização, suas ilusões e suas últimas mas nebulosas esperanças. Impossível ouvir “Shine on You Crazy Diamond” e não desejar expressar a saudade e a magia da união em notas harmônicas, mas improvisadas, na beleza da jornada musical há tanto e tão profundamente contemplada pelo humano.

Por vezes, esbarramos com a incerteza da criação, da inventividade, com o sempre irritante limite que, não raro, nos encurta as dedicações artísticas a esta ou aquela expressão. Mas a verdade é que desejamos sempre criar algo de valor similar àquele deleite que temos quando os olhos ou ouvidos cruzam caminhos com as coisas inspiradoras da arte; seja por simples homenagem, ou porque uma centelha daquela inventividade foi desperta pelo deleite, e deseja visitar a existência que compartilhamos; ser concebida, propagada entre os demais, sejam estes muitos ou poucos. Muitas centelhas aguardam a chama derradeira, a chama que ensina e que instiga, a chama que te desperta algo que desde sempre adormecia em recessos desconhecidos de teu pensamento, e cuja melhor consorte talvez seja a criação. Uma centelha viaja eras e flameja outras, chamas de origem, motivação, caráter, e fins distintos; mas que flamejam umas às outras. Eu amo a inspiração, amo a homenagem. Elas dão à luz muitos relatos similarmente valiosos sobre a beleza e a feiura, a vida e a morte, a esperança e o desespero, a harmonia e o caos. 

segunda-feira, 11 de março de 2013

O lapso dimensional da razão.




Um dia desses, a razão perderá sentido
Pois, num abismo, atirar-me-ei sem notar
Assim, terei racionalmente me perdido
No vazio, na anuência de aprender a voar

Sonho, no passado, com rios e verdes campos
De fato acordo no racional estampido
Na dor de perceber os meus devaneios lampos
Torturados pelo paraíso perdido

Preso – estúpido, num campo de cevada
Apático, inerte, como um espantalho
Roído pelo tempo, mais velho em minh’estada
A agonia temporal em meu casco grisalho

Inaudíveis, ecos das eras nos alcançam
Como piadas, são todos ouvidos em vão
Chega a noite, e campos verdes m’esmordaçam
De novo, como memórias d’uma abdução

Ecos de tempo distante, tal qual oceano
Em fundas cavernas de corais – labirinto
Sem minhas canções de ninar ou o doce abano
Em meio à chuva fria, acordo, ergo-me e minto

Vem-me uma dor da repetição e da obediência
Do adestramento ferino, oportunismo
Do charuto, do Jaguar soberbo, da máquina
Acres tempos do diamante sem brilhantismo

Novamente tento respirar o meu ar
Sentir-me na mágica do lar, despertar
Estranhamente, admiro a sucumbência
Mesmo que acamado em confortável dormência

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O poema acima foi escrito no dia da postagem (12.03.13). Fui muito inspirado pelas composições de uma de minhas bandas favoridas, Pink Floyd, e muitas de suas canções e letras estão - figurativa e literalmente - inseridas aí.
A pintura é de Edvard Munch, o expressionista norueguês e um de meus favoritos das artes visuais. O nome é Melancolia, e a gravidade de suas cores e formas refletem muito minhas visões de horizonte.

segunda-feira, 4 de março de 2013

O Malogro da Adequação.

Das palavras do Homem do "Subsolo" provém a ilustração da falha na simbiose com o meio, advindo de um certo desejo perverso de adequação, mas logo suprimido pela angústia:

"Eu tinha a paciência de ficar feito um imbecil, durante umas quatro horas, na companhia daquelas pessoas, ouvindo-as, sem ousar nem poder puxar com elas qualquer assunto. Ficava embotado, começava diversas vezes a suar, pairava sobre mim a paralisia; mas isto era bom e útil. Voltando para casa, adiava por algum tempo meu desejo de abraçar toda a humanidade."

- Memórias do Subsolo.

sábado, 29 de outubro de 2011

Cartas de um homem morto (1986).

O pós-apocalíptico na Arte sempre me atraiu, pois as nuances temáticas do escatológico, quando bem exploradas, fazem-nos imergir nas profundezas do abismo obscuro da suposta perdição existencial. A desesperança, a perda do luxo e a ironia do retrato "varredor de ruas" em busca de sua fuga contra a morte nos impelem ao deslocamento subjetivo, quando pomo-nos no lugar das personagens retratadas; tudo isso fortalece as noções que possuo acerca dos traços mundanos de existência que se espalham aqui e ali em nossos princípios ontológicos.

Cartas de um homem morto, de Konstantin Lopushanski, um filme soviético lançado no ressoar da Guerra Fria, quando o medo do Apocalipse bélico e de um inverno nuclear espreitava os lares incautos da URSS, transmite essa atmosfera com uma veracidade perspectivista incrível. Possui ar e iluminação de um filme que foi produzido há mais de 50 anos, e o ponto de vista de um protagonista que faz parte da ciência e que ainda vê esperança na humanidade é desesperador (com o perdão da ironia). Silêncio, morte, escuridão, a reproduzir os bizarros nacos de temor que Chernobyl trouxe à vida na época. Filme soviético é realmente uma prova de fogo; o tipo de filme que só atrai ao final aqueles que estão dispostos a se esgueirar sobre a beira do tal abismo obscuro.



Àqueles que se interessarem, este é um link para o filme completo no youtube:

Clique para ver o filme completo.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Cataclismo da comiseração.

Passos meus enervam a terra arruinada,
Lábios meus embebem-se d'uma indiferença
Zombeteira, falsa, convencida por nada,
Por tudo atribulada, nada lhe compensa;

Aquietar-se e assistir à ruína de horror,
Guardada no vil cerne da condescendência;
É deveras teatro moderno, riqueza e dor,
Ironias da amorfa e casual beneficência.

Pagaria para ver um imenso espetáculo
Escatológico, com fogo e escombros mil
Onde o caos, como inóspito e risonho oráculo
Rir-se-ia do fado da complacência imbecil.
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Poema escrito em 21.10.11, às 22:31h.

sábado, 13 de agosto de 2011

As aventuras de Robinson Crusoé (1902) - Georges Méliès.

Dos filmes de Georges Méliès aos quais eu já tinha assistido, este não estava incluso. Como sempre, surpreendi-me com sua posição visionária e, como sempre, tenho aquele frio na barriga de estar em íntimo contato com algo produzido há mais de 100 anos, e que representa o ínicio de uma arte (cortes em fade-in eram como ouro). Fascinante. Ótimas memórias tenho de filmes antiquíssimos pertencentes a uma era do cinema em que um mágico era necessário para produzir efeitos visuais, e o experimentalismo ainda não era uma opção. Numa era do cinema em que a narrativa ainda dava passos de bebê e era estranha, e em que o cinematógrafo não era considerado um instrumento rudimentar de filmagem. Numa era em que os filmes produzidos nos parecem hoje toscos, broncos. E realmente são.

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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O sal que serpenteia.

Serpenteiam por entre as rugas
Vagueiam vãs por memórias feias
Pouco importa o quanto as enxugas
Co’elas vacilas, serpenteias

Embora do deleite cilhem
Por vezes inocência tragam
Pela pele, do tempo virgem,
Inocência logo lh’apagam

Vergonha e medo, suas compartes
Ou enigmas, pura alacridade
Burburinhos, dores, mil artes
U’espinho, quer fira, ou agrade

Um ar triste que em riso torna
Bestiais, riem-se n’oras de dor
Abissais, vêm co’a estranha e morna
Ventania que segue teu alvor

No momento - em que se vão
Vê-se o dulçor, age o rigor
Curioso aquele olvidamento
Do choro tido nascimento

Graças a ele – o triste esqueces
O mal que seja, poupa as preces

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* Poema escrito em 11.08.2011 (mesmo dia da postagem).

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Ser guisado.


Nota: Este poema é um experimento meu com o galego-português, escrito em 14.11.2009, e fruto de um grande entusiasmo que me havia surgido meses antes ao ler Martim Moxa e outros grandes trovadores galego-portugueses. Devo os aprendizados da língua aos poemas - e apêndices para vocabulário - contidos na maravilhosa antologia Vozes do Trovadorismo Galego-Português (com cantigas de Pero da Ponte, Martim Moxa e Joam Soares Coelho), da editora Ibis. Crio este post com bastante contentamento, pois o poema estava perdido até ontem, quando o encontrei em arquivos esquecidos do computador, na minha cidade natal (o que férias e viagem de volta à sua casa não fazem...).
Enfim, espero agradar àqueles que apreciam poesia medieval.

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Ser guisado

Que ben mi faça almejar
Venha-m'o don d'a menage
Contr'a vida que mi trage
Hu sol cor non destorvou
Gran affan assy mi leixou,
Per cor coytado que causou

Oj hua coyta sint'eu migo
Ca sencs'eu - alá cativo
pero ben sey valya que ey
De pran affan alá leixei
Gran affan assy mi leixou
Ca cor coytado que causou

Quitar-me-ey d'aquesta dor
Hi que invade-me - a razon
Hu mal mi trage ren peyor
Será mal per tod'a sazon
Gran affan assy mi leixou
Per cor coytado que causou

Prez y proe, eu - ey tornado
Ant'affan, eu - ey guisado
Contr'a coyta que mi trage
Mal y dor eu - ey lidado
Affan ende assy mi leixou
Ca cor guisado que causou.


quinta-feira, 23 de junho de 2011

"Dead Man"(1995) e William Blake.

Há aproximadamente um mês, encontrava-me em meus insólitos momentos de ócio - no âmago da ironia, para ser sincero -, e resolvi assistir a um filme que eu tinha em mãos há muito, mas que a falta de ensejo ou de disposição não me permitira apreciar. Dead Man, de Jim Jarmusch (sim, ele mesmo), era o filme. A julgar pela capa, torna-se no mínimo curiosa a figura de um homem branco em trajes citadinos de negócios, a empunhar uma arma de fogo, pinturas indígenas no rosto. O elemento chamativo foi agudamente mantido...
Assisti. Ao final, minha ainda pobre intuição cinematográfica não me permitiu encontrar defeito algum, seja em termos técnicos, seja em termos narrativos (talvez o filme realmente seja praticamente impecável). Meu estado de deleite era inefável, e a catarse produzida pela trama era tremenda. As anotações surgidas enquanto eu assistia a tal pérola cobriam uma página inteira em um quebra-cabeças de palavras em formatos verticais, horizontais e diagonais.
A sequência narrativa é espetacular, e a lista de técnicas de decupagem que consegui encontrar no decorrer é assustadora; Jarmusch expôs a abundância que colhia em seu arsenal criativo. A cena inicial, com toda a sua edição sonora e visual, a disparidade rítmica do trem para despertar mudança espaço-temporal, e a maneira como a fotografia trabalha na paisagem para transmitir essa ideia... Seria necessário um dia inteiro para listar os fatores em totalidade.
Porém, um fator não passa despercebido, e representa no mínimo um elemento temático interessante...
Para começar, o protagonista se chama Bill Blake (Johnny Depp). Sua apatia diante da trama inteira é clara, e - propositadamente ou não - o mostra como a personagem mais inócua e inocente do filme. O filme parece ter uma forte base no poema "Auguries of Innocence", de William Blake (que, não por coincidência, permeou meus pensamentos durante quase uma semana depois de eu ter assistido), especialmente os últimos versos. Em verdade, o filme inteiro faz diversas referências, principalmente ao que eu chamaria de Tríade da Natureza do poeta inglês (os poemas The Lamb, The Tiger e The Fly), especialmente a belíssima cena onde o protagonista abraça um pequenino cordeiro que ele encontra baleado na floresta, a demonstrar o laço entre a personagem e a terra, lembrando-me dos expressivos versos de Blake em The Lamb (a propósito, O Cordeiro):
[...]Dost thou know who made thee?
Gave thee life, and bid thee feed
By the stream and o'er the mead;


A mudança de temperamento da personagem de Depp também é significativa. Como o contraste do dia e noite, sempre proposto pelo filme por mudanças constantes de cenas diurnas e noturnas - novamente a lembrar Blake, "God appears, and God is light/To those poor souls who dwell in night,/But does a human form display/To those who dwell in realms of day." -, a iminente metamorfose do doce e inócuo citadino ao aguerrido homem da mata sugere o envolvimento de Bill Blake (a personagem, e não o poeta) em sua própria desolação; resultado dos insucessos apresentados pelo enredo. A metamorfose dura sugere o tigre implacável que é referenciado em linhas como "Tiger! Tiger! burning bright/In the forests of the night". Filme notável.
Dead Man é claramente um filme para o público experimental, mas também para o público que aprecia referências e homenagens; como eu. Os elementos de alternância de núcleos de personagens, a trilha sonora espetacular - bem como os demais sons do filme, miméticos ou não -, e outros elementos mais, causam aquela agradabilíssima sensação de estar assistindo a algo que lhe empurra a novas camadas de percepção audiovisual.
E salve Jim Jarmusch.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

As homenagens (04/10/2009).

Nota: Este tópico foi escrito por mim em um blog antigo, atualmente inativo. Resolvi postá-lo aqui por vir novamente a mim o princípio criativo de homenagem, e por mera nostalgia de uma época em que eu podia escrever mais sobre coisas as quais eu apreciava.
Na ida e vinda de epifanias e grandes intelecções, deparamo-nos com ilustres fontes de júbilo interno, e ao observá-las, damo-nos conta de que não são meras imagens e indicadores; mas algo além das imagens e indicadores, que nos atinge e nos desperta vontade de criar; de produzir. A Arte e o que ela inspira é um grandioso exemplo disso, assim como eventos históricos, acontecimentos familiares...
Com isto, quero me referir às riquíssimas fontes de inspiração que encontramos dia após dia. Tocam-nos o Espírito, portanto merecem cuidadosa e sincera referência, e a elas dedicamos nossas singelas mas significativas - adoro esta expressão - homenagens: odes, lindas endechas, longos ou curtos poemas, hinos, canções singulares, escritos briosos, obras de Arte valorosas... tudo o que vem a ser um reconhecimento artístico considerável e abstrato àquilo que nos mantém acesos através da inspiração. Sinto-me sempre na inclinação de fazer isso, e o vejo como nobre ação individual a ser perpetuada. A bela e tenra homenagem...

Imagem: Athena aconselha Diomedes, o grande rei de Argos, antes da batalha (Schlossbrücke, Berlin). Grande fonte de inspiração, digna de grandes homenagens.

domingo, 29 de maio de 2011

Schloss Vogelöd - O castelo Vogeloed (1921).

Houve uma época em que filmes de crime continham uma faísca a mais de charme e apelo à curiosidade dos espectadores. Todo o cenário era misterioso e sedutor; o preto-e-branco era selvagem e também galante, e a iluminação, confortavelmente misteriosa. Essa época, resultado de adaptações advindas de livros e peças de teatro (sempre se é grato a A. Christie por isso), consolidou o que conhecemos hoje como Film Noir dos anos 40 e 50. Ótimos filmes para se apreciar, e definitivamente ótimas fontes de - no mínimo - passatempo.
Curioso observar como o cinema em sua época mais infante - em termos cronológicos, não em aspectos técnicos - plantou tácitas sementes que percebemos hoje brotarem. A colheita desta época vai àquela a qual citei no início em forma de centenas de filmes policiais, de suspense, detetives, e um punhado de outras categorias que vem de uma nascente chamada filmes de crime.
Assim ocorrera com O castelo Vogeloed (1921), de Friedrich Wilhelm Murnau. Não cogito a certeza de uma conexão direta e/ou absoluta deste filme sobre o gênero de crime e detetive, mas as reminiscências existem e são bem delineadas. Murnau, um dos criadores do Expressionismo Alemão, adentrou uma atmosfera riquíssima com este filme, incitando de forma direta temas abstrativos e concretos concomitantemente. A conexão com filmes de crime que mencionei acima reside principalmente no desenrolar do enredo chamativo, em que o obscuro Conde Oetsch visita o Barão Safferstaett em sua mansão de campo, em temporada de caça. Entretanto, todos os hóspedes na ocasião desconfiam que Oetsch matara seu irmão tempos antes. O enredo busca através dessa polêmica interna a atenção do espectador; e a consegue facilmente. E a dúvida acerca do crime surgem e ressurgem durante a história.
A cinematografia é admirável, pois ainda me surpreendo (apesar de saber que esta fase do cinema mudo já havia conhecido gênios do filmmaking e da criatividade de mise-én-scène) com a pluralidade de planos utilizados para despertar conforto da audiência ao assistir ao filme. Em plenos anos 20, Murnau já ousava com Planos Gerais - em cenas da caça e da classicíssima mansão do Barão Safferstaett -, os já consagrados Planos Médios - nas cenas de bate-papo entre os hóspedes, a mostrarem repetidamente [embora sem cansar] os ambientes internos e pomposos aposentos -, Planos Americanos - quando em conversas em dupla, ou em cenas de aflição da sofrida Baronesa -, e até Primeiros Planos - principalmente para enfatizar a aparência suspicaz de Oetsch. Sem falar na belíssima trilha sonora, que acompanha cada traço de mudança de ares na película; a ponto de me fazer editar todo o áudio do filme para poder escutar as músicas separadamente. Audaz e industrioso era Murnau.
Certamente um dos meus filmes mudos favoritos - e arriscaria em alargar a categoria de tal preferência -, O castelo Vogeloed retrata um estilo de filme talvez único: uma pitada de Expressionismo Alemão; o conhecido terror distorcido - em expressões humanas - murnauista; os questionamentos internos de fidelidade da Baronesa; a sugerida perspectiva de verdade - contida na contínua certeza da culpa de Oetsch na morte de seu próprio irmão; a faceta de filme de detetive; e a graciosa pluralidade de planos e genial cinematografia de Murnau. Único e estridente.

Plano Americano no filme.

Plano Conjunto no filme.

Plano Geral no filme.
Primeiro Plano (ou close-up) no filme.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

A chuva da morte.



Firmamento roga ácidas suas pragas
Precipitação de eras de ironia
Natura – tu sujamente me agradas
Com barganhas de dor e agonia

Sei das jaulas que roem lentamente
Meu ser, e com trejeitos gentis
Dão-me abjeta esperança inerente
Ao jugo - velhas propostas vis

Gotas mortificadas da luz
O engodo que – alhures – conduz
A celebração à morte perfeita
A qual do mundano é insatisfeita

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- Poema que escrevi no dia 19/05. Incrível como a imagem que pus acima resume tudo o que eu estava imaginando na ocasião; a maneira como a água bloqueia os caminhos por entre os ladrilhos no solo. Forçosa e odiosa chuva...

domingo, 1 de maio de 2011

The Call of Cthulhu - conto e filme.


Sou suspeito em falar de H. P. Lovecraft. Trabalhei academicamente com o autor, e me sobram adjetivos positivos para classificar um escritor que mudou tanto a noção de terror, ainda que ligado ao ideal gótico (como Poe, Polidori e Stoker, por exemplo). Sua visão ontológica do Universo, chamada cosmicismo, regou em minha concepção sementes de negativismo - o que considero, em mim, ser um mal necessário - em relação ao absoluto conhecimento do homem sobre seu próprio universo, e a maneira arrogante como o pensamento humano revela os grilhões de um mundo meramente material como verossímil, sempre crível, "o" aceitável. Eu diria que não há maneira melhor de tratar tal linha de pensamento (o negativismo) dentro da literatura de terror do que a maneira de Lovecraft. Com uma miríade de seres alienígenas ao julgamento humano, ele traçou a saga das criaturas que retomam o seu antigo - e esquecido - domínio do universo, promovendo o caos e a extinção da humanidade e sua tolice.
Não que eu concorde com tamanha desgraça ao destino humano (também não diria que não concordo). Mas que é uma visão que choca e, portanto, causa o fenômeno da reflexão, não se pode negar. A maneira densa como Lovecraft fala da existência dessas criaturas, os artifícios linguísticos, narrativos, arquetípicos,... são todos de contribuição imensa para que se chegue à atmosfera epifânica final; a epifania que me regou as sementes do negativismo. Autor de naturezas conflitantes e gênio notável, produziu diversas obras intrigantes: com At the Mountains of Madness, mostra a loucura à qual a descoberta do desconhecido leva; em Cool Air, toca o axioma moderno da negação da morte; em Polaris, faz-nos enxergar a adversidade que a sociedade representa aos indivíduos "insanos".

Em The Call of Cthulhu, sua obra mais aclamada, Lovecraft explora os conflitos contidos na repressão moral de um culto antigo a seres abissais. O que reflete na incapacidade do indivíduo comum de lidar com aquilo que ele não conceberia materialmente. O conto se utiliza de vocabulário extenso e narração detalhista e com estilo "epistolary novel" para transferir a atmosfera de suspense da descoberta que aterroriza mesmo o leitor. Reitero que seria vão que eu desse minha opinião sobre o conto, visto a admiração irrestrita que desenvolvo por Lovecraft.
Escrevi esta descrição mais aprofundada para apresentar o que eu diria ser uma das adaptações melhor trabalhadas às quais tive o prazer de assistir. Trata-se do filme The Call of Cthulhu, de 2005, com direção de Andrew Leman, e desenvolvido pela HPLHS (H. P. Lovecraft Historical Society). A estética vintage de filme mudo o conferiu uma capacidade narrativa demasiadamente semelhante àquela do conto, o que me surpreendeu bastante. O que é melhor que palavras escritas e uma atmosfera sonora congelante de uma trilha de terror para transmitir a difícil cadência narrativa do short story de Lovecraft? Pode-se afirmar naturalmente que adaptação não tem a ver com fidelidade (um tema há muito batido), mas a proximidade entre os métodos descritivos de ambos é impressionante, o que faz o filme parecer ainda mais curioso.


Sem mais delongas, vamos ao trailer:


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sábado, 2 de abril de 2011

A voz do abismo.

Abissal como nossa existência é a frequência com a qual somos calados. Nós, indivíduos que falam pela unicidade - e não pela unidade -, perdemos nosso ardor em gritar, esvanecem-se nossas odes, caem-se nossos fundamentos.
Mas não caem por dentro. A estrutura interna de nosso espírito é infindável e invariável, de forma que só fantasticamente a percebemos quando nos pomos a criar, a produzir em nome do mesmo ser abissal que ilustramos na convivência macrocósmica - aquela que destroi aos poucos, e à qual nossos fundamentos externos se ruem como um decrépito prior de uma paróquia imêmore. Os seres alheios são por natureza tão indecorosos conosco que chegam a ser caricatos na sua louvação à arte desconhecida da imiscuição.
A voz, desta forma, ecoa como por um abismo que encontra seu fim cada vez mais estreito, e perde então a voracidade e o alcance de outrora, atingindo aqueles poucos quanto mais tardia se torna a fala. O manifesto dos indivíduos que escrevem a outros indivíduos se perde porque a noção briosa de particularidade e individualidade se permuta com a deplorável e cada vez mais comum - e, pelo pior dos infortúnios, inconsciente - noção de coletividade incondicional.
Mas, quer queira ou não, a arte serve ao nosso propósito desde o sempre. Nós, as facas cegas da inverdade mundial, que atacamos para não sermos atacados, que nos enclausuramos nas minúcias do nosso ser, uma clausura dentro de um universo de clausuras abomináveis, monstros de vida eternal; monstros que nunca cessarão sua perseguição contra nós e nossos ideais. Nossos versos são ácidos - altos - demais para que eles os enxerguem sem uma expressão de desdém, de piedade e de raiva. Por isso nossas vozes são tão frias e tão distantes; somos indiferentes para com aquilo que eles julgam tão valioso. Pois sabemos que vivemos uma farsa; e escrevemos, criamos!, contra a falsa esperança de que seremos bem-sucedidos aqui.

sábado, 26 de março de 2011

Natura.

Sabemos muito bem da importância da natureza nos extremos da história conhecida. Nos momentos mais longínquos da humanidade - os quais podemos remontar por acessos e registros -, diversas civilizações possuíam uma relação simbiótica com a terra através da Arte. Por outro lado, o industrialismo trouxe uma nova safra de escritores - falando especifícamente da literatura romântica - de obras extremamente concernentes à natureza. O antigo e o contemporâneo se unem no que tange a tal assunto. No traço já conhecido de mimese da Arte, temos de admitir que a natureza representou uma fonte de intelecções demasiadamente revisitada, e o retrato construído por milênios se materializou num ícone temático para a posteridade (se é que a posteridade não também revisitará esse mesmo ícone de forma perene). Com o surgimento de revoluções artísticas, a poesia tomou seu lugar na expressão de tal tema, tendo o romantismo como suporte mais notável.

Falo como se o panorama não chegasse ao cinema. A sétima arte ostenta um arsenal de obras que carregam o tema de maneiras diversas: em forma de adaptações de obras consagradas (como Wuthering Heights, de William Wyler), em forma de filmes conceituais (como Le Diable, probablement, de Bresson), e em forma de uma infinita coleção de documentários, de teor jornalístico ou social. A ligação é evidente.
- Wuthering Heights (1939):
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Dizem Campos e Vechi (1991, p. 44):
"A natureza corresponde ao topos
(lugar-comum) horaciano do locus amoenus (local ameno), expresso
através de estereótipos, tais como: o campo tranquilo, a unidade entre o céu e a
terra, os animais domésticos e os elementos mitológicos."

sexta-feira, 25 de março de 2011

Vamos falar de clássicos.


Vamos falar do homem, que cria e se coloca diante de sua criação como sua criança; embora seus frutos sejam de demasiado fardo para ele. Em que busque a nitidez de sua obra, não estaria ele em tentativa de autodefesa? Autodefesa contra as malícias do mundo, a concretizar seus ideais, a condensar suas expectativas, a repulsar suas chagas, a sedimentar seu ser.
Vamos falar de clássicos, que evidenciam precisamente as intenções da criação em sua mais pura forma. As inúmeras veredas pelas quais a criação humana se esgueira determina que nível deverá ser alcançado para que tal ou qual obra sejam consideradas relevantes para o pensamento, e que, além disso, consiga extrair raízes artísticas expressivas o suficiente para se tornar um clássico. A união de ambas as concepções – a intelectiva e a artística – formam o casamento mais perfeito já presenciado na história. E eis que a prole de tal união é o clássico, puro, audacioso, engenhoso, e que carrega o fruto de demasiado fardo à humanidade.
Vamos falar de horizontes artísticos, que prestam ao homem fontes infindáveis de criatividade e ideal, e de cujos limites não se possui conhecimento. De fato, o alcance abstrativo humano não encontra nenhuma demarcação reconhecível, e a capacidade individual e inata de construir e induzir ao pensamento artístico representa uma realidade colossal. Dentro do universo criativo, desenvolve-se uma miríade de universos manifestos, por vezes se consolidando e se materializando de maneira inesperada, a construir uma estrutura que demonstra ao criador que ele pode expressar seus anseios através das inúmeras veredas artísticas. Ah, a linguagem...
Vamos falar de obras que derramam seus deleites e lamúrias sobre o mundo e narram sua época, ao passo que vão além dela. Vamos falar das fontes infindáveis e criativas, que falam por si e pelos muitos objetos que dela derivam e aos quais ela retorna; altiva, plácida.
Vamos falar de Hesse, cujos conflitantes protagonistas levam o próprio público a uma mudança de postura. Vamos falar de Shakespeare, que com seu teatro, desafiara uma convenção literária contemporânea. Vamos falar de Blake, que ao encantar com sua poesia, ousou além dos limites imaginativos, como um tigre. Vamos falar de Nietzsche, que saturou e pelejou contra a curiosa natureza moral da humanidade, ao passo que ofertava-lhe um novo caráter de espírito. Vamos falar de London, que punha animais em lugar de regulares personagens, para assim fazer enxergar a natureza. Vamos falar de Dostoyevsky, que incitou as visões psicológicas além da culpa. Vamos falar de Coleridge, que com seu marinheiro, pôs a rima a contar a história ante o desafio da poesia. Vamos falar de Augusto dos Anjos, que flertou com a morte no que fazia arte. Vamos falar desses seres que desafiaram a si mesmos em primeiro lugar, e desafiaram o mundo.
Vamos falar da imortalidade conflituosa e perseverante também dos que criaram obras reticentes, mas que inundam a vista audaz do indivíduo. Vamos falar de martírio.
Vamos, então, falar de tudo aquilo que o homem vê como doloroso e celebrar o desassossego.