segunda-feira, 11 de março de 2013

O lapso dimensional da razão.




Um dia desses, a razão perderá sentido
Pois, num abismo, atirar-me-ei sem notar
Assim, terei racionalmente me perdido
No vazio, na anuência de aprender a voar

Sonho, no passado, com rios e verdes campos
De fato acordo no racional estampido
Na dor de perceber os meus devaneios lampos
Torturados pelo paraíso perdido

Preso – estúpido, num campo de cevada
Apático, inerte, como um espantalho
Roído pelo tempo, mais velho em minh’estada
A agonia temporal em meu casco grisalho

Inaudíveis, ecos das eras nos alcançam
Como piadas, são todos ouvidos em vão
Chega a noite, e campos verdes m’esmordaçam
De novo, como memórias d’uma abdução

Ecos de tempo distante, tal qual oceano
Em fundas cavernas de corais – labirinto
Sem minhas canções de ninar ou o doce abano
Em meio à chuva fria, acordo, ergo-me e minto

Vem-me uma dor da repetição e da obediência
Do adestramento ferino, oportunismo
Do charuto, do Jaguar soberbo, da máquina
Acres tempos do diamante sem brilhantismo

Novamente tento respirar o meu ar
Sentir-me na mágica do lar, despertar
Estranhamente, admiro a sucumbência
Mesmo que acamado em confortável dormência

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O poema acima foi escrito no dia da postagem (12.03.13). Fui muito inspirado pelas composições de uma de minhas bandas favoridas, Pink Floyd, e muitas de suas canções e letras estão - figurativa e literalmente - inseridas aí.
A pintura é de Edvard Munch, o expressionista norueguês e um de meus favoritos das artes visuais. O nome é Melancolia, e a gravidade de suas cores e formas refletem muito minhas visões de horizonte.

segunda-feira, 4 de março de 2013

O Malogro da Adequação.

Das palavras do Homem do "Subsolo" provém a ilustração da falha na simbiose com o meio, advindo de um certo desejo perverso de adequação, mas logo suprimido pela angústia:

"Eu tinha a paciência de ficar feito um imbecil, durante umas quatro horas, na companhia daquelas pessoas, ouvindo-as, sem ousar nem poder puxar com elas qualquer assunto. Ficava embotado, começava diversas vezes a suar, pairava sobre mim a paralisia; mas isto era bom e útil. Voltando para casa, adiava por algum tempo meu desejo de abraçar toda a humanidade."

- Memórias do Subsolo.