quinta-feira, 23 de junho de 2011

"Dead Man"(1995) e William Blake.

Há aproximadamente um mês, encontrava-me em meus insólitos momentos de ócio - no âmago da ironia, para ser sincero -, e resolvi assistir a um filme que eu tinha em mãos há muito, mas que a falta de ensejo ou de disposição não me permitira apreciar. Dead Man, de Jim Jarmusch (sim, ele mesmo), era o filme. A julgar pela capa, torna-se no mínimo curiosa a figura de um homem branco em trajes citadinos de negócios, a empunhar uma arma de fogo, pinturas indígenas no rosto. O elemento chamativo foi agudamente mantido...
Assisti. Ao final, minha ainda pobre intuição cinematográfica não me permitiu encontrar defeito algum, seja em termos técnicos, seja em termos narrativos (talvez o filme realmente seja praticamente impecável). Meu estado de deleite era inefável, e a catarse produzida pela trama era tremenda. As anotações surgidas enquanto eu assistia a tal pérola cobriam uma página inteira em um quebra-cabeças de palavras em formatos verticais, horizontais e diagonais.
A sequência narrativa é espetacular, e a lista de técnicas de decupagem que consegui encontrar no decorrer é assustadora; Jarmusch expôs a abundância que colhia em seu arsenal criativo. A cena inicial, com toda a sua edição sonora e visual, a disparidade rítmica do trem para despertar mudança espaço-temporal, e a maneira como a fotografia trabalha na paisagem para transmitir essa ideia... Seria necessário um dia inteiro para listar os fatores em totalidade.
Porém, um fator não passa despercebido, e representa no mínimo um elemento temático interessante...
Para começar, o protagonista se chama Bill Blake (Johnny Depp). Sua apatia diante da trama inteira é clara, e - propositadamente ou não - o mostra como a personagem mais inócua e inocente do filme. O filme parece ter uma forte base no poema "Auguries of Innocence", de William Blake (que, não por coincidência, permeou meus pensamentos durante quase uma semana depois de eu ter assistido), especialmente os últimos versos. Em verdade, o filme inteiro faz diversas referências, principalmente ao que eu chamaria de Tríade da Natureza do poeta inglês (os poemas The Lamb, The Tiger e The Fly), especialmente a belíssima cena onde o protagonista abraça um pequenino cordeiro que ele encontra baleado na floresta, a demonstrar o laço entre a personagem e a terra, lembrando-me dos expressivos versos de Blake em The Lamb (a propósito, O Cordeiro):
[...]Dost thou know who made thee?
Gave thee life, and bid thee feed
By the stream and o'er the mead;


A mudança de temperamento da personagem de Depp também é significativa. Como o contraste do dia e noite, sempre proposto pelo filme por mudanças constantes de cenas diurnas e noturnas - novamente a lembrar Blake, "God appears, and God is light/To those poor souls who dwell in night,/But does a human form display/To those who dwell in realms of day." -, a iminente metamorfose do doce e inócuo citadino ao aguerrido homem da mata sugere o envolvimento de Bill Blake (a personagem, e não o poeta) em sua própria desolação; resultado dos insucessos apresentados pelo enredo. A metamorfose dura sugere o tigre implacável que é referenciado em linhas como "Tiger! Tiger! burning bright/In the forests of the night". Filme notável.
Dead Man é claramente um filme para o público experimental, mas também para o público que aprecia referências e homenagens; como eu. Os elementos de alternância de núcleos de personagens, a trilha sonora espetacular - bem como os demais sons do filme, miméticos ou não -, e outros elementos mais, causam aquela agradabilíssima sensação de estar assistindo a algo que lhe empurra a novas camadas de percepção audiovisual.
E salve Jim Jarmusch.

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