domingo, 1 de maio de 2011

The Call of Cthulhu - conto e filme.


Sou suspeito em falar de H. P. Lovecraft. Trabalhei academicamente com o autor, e me sobram adjetivos positivos para classificar um escritor que mudou tanto a noção de terror, ainda que ligado ao ideal gótico (como Poe, Polidori e Stoker, por exemplo). Sua visão ontológica do Universo, chamada cosmicismo, regou em minha concepção sementes de negativismo - o que considero, em mim, ser um mal necessário - em relação ao absoluto conhecimento do homem sobre seu próprio universo, e a maneira arrogante como o pensamento humano revela os grilhões de um mundo meramente material como verossímil, sempre crível, "o" aceitável. Eu diria que não há maneira melhor de tratar tal linha de pensamento (o negativismo) dentro da literatura de terror do que a maneira de Lovecraft. Com uma miríade de seres alienígenas ao julgamento humano, ele traçou a saga das criaturas que retomam o seu antigo - e esquecido - domínio do universo, promovendo o caos e a extinção da humanidade e sua tolice.
Não que eu concorde com tamanha desgraça ao destino humano (também não diria que não concordo). Mas que é uma visão que choca e, portanto, causa o fenômeno da reflexão, não se pode negar. A maneira densa como Lovecraft fala da existência dessas criaturas, os artifícios linguísticos, narrativos, arquetípicos,... são todos de contribuição imensa para que se chegue à atmosfera epifânica final; a epifania que me regou as sementes do negativismo. Autor de naturezas conflitantes e gênio notável, produziu diversas obras intrigantes: com At the Mountains of Madness, mostra a loucura à qual a descoberta do desconhecido leva; em Cool Air, toca o axioma moderno da negação da morte; em Polaris, faz-nos enxergar a adversidade que a sociedade representa aos indivíduos "insanos".

Em The Call of Cthulhu, sua obra mais aclamada, Lovecraft explora os conflitos contidos na repressão moral de um culto antigo a seres abissais. O que reflete na incapacidade do indivíduo comum de lidar com aquilo que ele não conceberia materialmente. O conto se utiliza de vocabulário extenso e narração detalhista e com estilo "epistolary novel" para transferir a atmosfera de suspense da descoberta que aterroriza mesmo o leitor. Reitero que seria vão que eu desse minha opinião sobre o conto, visto a admiração irrestrita que desenvolvo por Lovecraft.
Escrevi esta descrição mais aprofundada para apresentar o que eu diria ser uma das adaptações melhor trabalhadas às quais tive o prazer de assistir. Trata-se do filme The Call of Cthulhu, de 2005, com direção de Andrew Leman, e desenvolvido pela HPLHS (H. P. Lovecraft Historical Society). A estética vintage de filme mudo o conferiu uma capacidade narrativa demasiadamente semelhante àquela do conto, o que me surpreendeu bastante. O que é melhor que palavras escritas e uma atmosfera sonora congelante de uma trilha de terror para transmitir a difícil cadência narrativa do short story de Lovecraft? Pode-se afirmar naturalmente que adaptação não tem a ver com fidelidade (um tema há muito batido), mas a proximidade entre os métodos descritivos de ambos é impressionante, o que faz o filme parecer ainda mais curioso.


Sem mais delongas, vamos ao trailer:


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