domingo, 29 de maio de 2011

Schloss Vogelöd - O castelo Vogeloed (1921).

Houve uma época em que filmes de crime continham uma faísca a mais de charme e apelo à curiosidade dos espectadores. Todo o cenário era misterioso e sedutor; o preto-e-branco era selvagem e também galante, e a iluminação, confortavelmente misteriosa. Essa época, resultado de adaptações advindas de livros e peças de teatro (sempre se é grato a A. Christie por isso), consolidou o que conhecemos hoje como Film Noir dos anos 40 e 50. Ótimos filmes para se apreciar, e definitivamente ótimas fontes de - no mínimo - passatempo.
Curioso observar como o cinema em sua época mais infante - em termos cronológicos, não em aspectos técnicos - plantou tácitas sementes que percebemos hoje brotarem. A colheita desta época vai àquela a qual citei no início em forma de centenas de filmes policiais, de suspense, detetives, e um punhado de outras categorias que vem de uma nascente chamada filmes de crime.
Assim ocorrera com O castelo Vogeloed (1921), de Friedrich Wilhelm Murnau. Não cogito a certeza de uma conexão direta e/ou absoluta deste filme sobre o gênero de crime e detetive, mas as reminiscências existem e são bem delineadas. Murnau, um dos criadores do Expressionismo Alemão, adentrou uma atmosfera riquíssima com este filme, incitando de forma direta temas abstrativos e concretos concomitantemente. A conexão com filmes de crime que mencionei acima reside principalmente no desenrolar do enredo chamativo, em que o obscuro Conde Oetsch visita o Barão Safferstaett em sua mansão de campo, em temporada de caça. Entretanto, todos os hóspedes na ocasião desconfiam que Oetsch matara seu irmão tempos antes. O enredo busca através dessa polêmica interna a atenção do espectador; e a consegue facilmente. E a dúvida acerca do crime surgem e ressurgem durante a história.
A cinematografia é admirável, pois ainda me surpreendo (apesar de saber que esta fase do cinema mudo já havia conhecido gênios do filmmaking e da criatividade de mise-én-scène) com a pluralidade de planos utilizados para despertar conforto da audiência ao assistir ao filme. Em plenos anos 20, Murnau já ousava com Planos Gerais - em cenas da caça e da classicíssima mansão do Barão Safferstaett -, os já consagrados Planos Médios - nas cenas de bate-papo entre os hóspedes, a mostrarem repetidamente [embora sem cansar] os ambientes internos e pomposos aposentos -, Planos Americanos - quando em conversas em dupla, ou em cenas de aflição da sofrida Baronesa -, e até Primeiros Planos - principalmente para enfatizar a aparência suspicaz de Oetsch. Sem falar na belíssima trilha sonora, que acompanha cada traço de mudança de ares na película; a ponto de me fazer editar todo o áudio do filme para poder escutar as músicas separadamente. Audaz e industrioso era Murnau.
Certamente um dos meus filmes mudos favoritos - e arriscaria em alargar a categoria de tal preferência -, O castelo Vogeloed retrata um estilo de filme talvez único: uma pitada de Expressionismo Alemão; o conhecido terror distorcido - em expressões humanas - murnauista; os questionamentos internos de fidelidade da Baronesa; a sugerida perspectiva de verdade - contida na contínua certeza da culpa de Oetsch na morte de seu próprio irmão; a faceta de filme de detetive; e a graciosa pluralidade de planos e genial cinematografia de Murnau. Único e estridente.

Plano Americano no filme.

Plano Conjunto no filme.

Plano Geral no filme.
Primeiro Plano (ou close-up) no filme.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

A chuva da morte.



Firmamento roga ácidas suas pragas
Precipitação de eras de ironia
Natura – tu sujamente me agradas
Com barganhas de dor e agonia

Sei das jaulas que roem lentamente
Meu ser, e com trejeitos gentis
Dão-me abjeta esperança inerente
Ao jugo - velhas propostas vis

Gotas mortificadas da luz
O engodo que – alhures – conduz
A celebração à morte perfeita
A qual do mundano é insatisfeita

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- Poema que escrevi no dia 19/05. Incrível como a imagem que pus acima resume tudo o que eu estava imaginando na ocasião; a maneira como a água bloqueia os caminhos por entre os ladrilhos no solo. Forçosa e odiosa chuva...

domingo, 1 de maio de 2011

The Call of Cthulhu - conto e filme.


Sou suspeito em falar de H. P. Lovecraft. Trabalhei academicamente com o autor, e me sobram adjetivos positivos para classificar um escritor que mudou tanto a noção de terror, ainda que ligado ao ideal gótico (como Poe, Polidori e Stoker, por exemplo). Sua visão ontológica do Universo, chamada cosmicismo, regou em minha concepção sementes de negativismo - o que considero, em mim, ser um mal necessário - em relação ao absoluto conhecimento do homem sobre seu próprio universo, e a maneira arrogante como o pensamento humano revela os grilhões de um mundo meramente material como verossímil, sempre crível, "o" aceitável. Eu diria que não há maneira melhor de tratar tal linha de pensamento (o negativismo) dentro da literatura de terror do que a maneira de Lovecraft. Com uma miríade de seres alienígenas ao julgamento humano, ele traçou a saga das criaturas que retomam o seu antigo - e esquecido - domínio do universo, promovendo o caos e a extinção da humanidade e sua tolice.
Não que eu concorde com tamanha desgraça ao destino humano (também não diria que não concordo). Mas que é uma visão que choca e, portanto, causa o fenômeno da reflexão, não se pode negar. A maneira densa como Lovecraft fala da existência dessas criaturas, os artifícios linguísticos, narrativos, arquetípicos,... são todos de contribuição imensa para que se chegue à atmosfera epifânica final; a epifania que me regou as sementes do negativismo. Autor de naturezas conflitantes e gênio notável, produziu diversas obras intrigantes: com At the Mountains of Madness, mostra a loucura à qual a descoberta do desconhecido leva; em Cool Air, toca o axioma moderno da negação da morte; em Polaris, faz-nos enxergar a adversidade que a sociedade representa aos indivíduos "insanos".

Em The Call of Cthulhu, sua obra mais aclamada, Lovecraft explora os conflitos contidos na repressão moral de um culto antigo a seres abissais. O que reflete na incapacidade do indivíduo comum de lidar com aquilo que ele não conceberia materialmente. O conto se utiliza de vocabulário extenso e narração detalhista e com estilo "epistolary novel" para transferir a atmosfera de suspense da descoberta que aterroriza mesmo o leitor. Reitero que seria vão que eu desse minha opinião sobre o conto, visto a admiração irrestrita que desenvolvo por Lovecraft.
Escrevi esta descrição mais aprofundada para apresentar o que eu diria ser uma das adaptações melhor trabalhadas às quais tive o prazer de assistir. Trata-se do filme The Call of Cthulhu, de 2005, com direção de Andrew Leman, e desenvolvido pela HPLHS (H. P. Lovecraft Historical Society). A estética vintage de filme mudo o conferiu uma capacidade narrativa demasiadamente semelhante àquela do conto, o que me surpreendeu bastante. O que é melhor que palavras escritas e uma atmosfera sonora congelante de uma trilha de terror para transmitir a difícil cadência narrativa do short story de Lovecraft? Pode-se afirmar naturalmente que adaptação não tem a ver com fidelidade (um tema há muito batido), mas a proximidade entre os métodos descritivos de ambos é impressionante, o que faz o filme parecer ainda mais curioso.


Sem mais delongas, vamos ao trailer:


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